Violência doméstica e envolvimento com drogas, moradores relataram situações que os levaram a morar nas ruas de uma das principais cidades da região

Wagão

Alessandro Barbosa, 33 anos, profissão caminhoneiro, o endereço de Alessandro, a praça em frente a igreja matriz de São Sebastião em Jaú. São quase uma da tarde e Alessandro terminava de comer uma marmita doada por um comerciante. Viciado em álcool Alessandro vive nas ruas há pelo menos 7 anos, o motivo uma desilusão amorosa.

Enquanto almoçava sentado em frente a um restaurante Alessandro era acompanhado discretamente por Edson Ramos, 48 anos dono do restaurante. Alessandro doa todos os dias uma marmita de comida para Alessandro. Edson conta que entende a dificuldade do morador em deixar o vício. Morando nas ruas e sem o apoio da família a situação tende a piorar, acredita ele.

Com a ajuda do filho Rafael Ramos, Edson diz que já defendeu Alessandro em várias situações em que era ameaçado por outros moradores. Além da comida eles contam que já doaram roupas, tênis e agasalhos para o morador, mas que as roupas ou são roubadas por outros moradores de rua ou são trocadas por álcool.

Morador de rua Alessandro abraça o comerciante Edson Ramos durante a entrevista-Foto Antônio Carlos

Segundo o comerciante, Alessandro já teria passado por cinco internações em clínicas de tratamento para dependentes químicos.

Um terceiro homem, também morador de rua se aproxima, mais agitado ele se identifica apenas como Lázaro, 45 anos. Ele pede ajuda para comprar cigarros e dividem uma garrafa de pinga. A conversa entre Alessandro e o repórter Antônio Carlos é interrompida diversas vezes por Lázaro que em alguns momentos chega a pedir ajuda para se recuperar. Lázaro diz que a família mora no bairro Pires de Campos II e fala sobre a mãe.

Embora frequente a praça da igreja São Sebastião, Lázaro diz que não passa as noites no local.

A relação entre comerciantes e moradores de rua possui regras estabelecidas entre eles. Os comerciantes pedem para que os moradores não abordem clientes dos estabelecimentos.

Moradores se abrigam na praça da Igreja São Sebastião em Jaú-Foto Antônio Carlos

Praça das Virgens, centro da cidade, são pouco mais de seis horas da tarde quando os primeiros moradores de rua começam a chegar ao local, eles aguardam a abertura de uma abrigo provisório montado pela prefeitura. No local onde irão passar a noite eles recebem alimentação, produtos de higiene.

Paulo Roberto Honorato, 34 anos, o homem jovem de boa aparência traz consigo uma sacola com pães e carrega nas mãos documentos, ele chega de mais um dia em busca de trabalho pelas ruas da cidade. Bem vestido e comunicativo ele aceita conversar com a reportagem. Honorato diz que vive nas ruas há pouco mais de seis meses. O uso de drogas desde os 12 anos de idade , segundo ele, foi um dos motivos que fez com que a esposa o deixasse.

Honorato não carrega malas, ele diz que as malas chamam muita atenção ao caminhar pelas ruas aumentando o preconceito.

Morador de Itapuí Honorato diz que após sair de casa morou em um albergue em Bauru antes de vir para Jaú. Honorato diz que está há cinco diz sem fazer uso de droga e que está frequentando um grupo de ajuda para dependentes químicos.

O repórter Antônio Carlos conversou com outros moradores que pediram para não serem identificados, entre as histórias relatadas, violência familiar, envolvimento com o crime organizado uso de drogas e passagens pelo sistema prisional.

Alguns dos moradores entrevistados na tarde desta quinta-feira (13) contam que recebem atendimento no Centro POP, programa do governo federal voltado ao atendimento de pessoas em situação de rua e de vulnerabilidade social.

Governo acompanha denuncias de violações aos direitos de pessoas em situação de rua

Um relatório divulgado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) aponta que o Disque 100 fechou 2018 com 889 denúncias de violações aos direitos de pessoas em situação de rua. Entre as denúncias, sobressaem-se às relativas a negligência (673), violência psicológica (183) – como xingamentos, hostilização, humilhação -, violência institucional (161) e violência física (116).

Em 2017 foram registradas 996 registros denúncias, e em 2016, 937.

A rua (70,7%) foi o principal local onde as violações foram cometidas, embora muitos abusos tenham acontecido em albergues (6,47%), espaços que deveriam servir como espaço de acolhimento.

Ao contrário do que o ministério apontou sobre idosos, o desrespeito aos direitos humanos da população em situação de rua afeta mais homens (57%) do que mulheres (27,6%), considerando o universo daqueles que informaram seu gênero.

O levantamento evidencia, complementarmente, que as vítimas são, na maioria das vezes, adultos jovens. Segundo o documento, 24,5% das vítimas têm de 18 a 30 anos e 23% de 31 a 40 anos. Não se sabe a idade de 20% das vítimas. Quase metade das vítimas é negra, ou seja, de pardos (32%) e pretos (13,9%), enquanto brancos e indígenas representam 21,6% e 1,5% do total, respectivamente.

Plano de acolhida

Carlos Ricardo, coordenador-geral dos Direitos das Populações em Situação de Risco da Secretaria Nacional de Proteção Global (SNPG), do ministério, informou que o governo federal planeja implementar no país o Projeto Moradia Primeiro. A ação tem como base o modelo Housing First, criado nos Estados Unidos, na década de 1990, e que, segundo ele, garantirá maior estabilidade à vida de pessoas em situação de rua.

De acordo com o Ministério da Mulher, verificou-se que 80% a 90% das pessoas que aderem ao projeto Housing First permanecem na moradia oferecida, mesmo quando já se passaram dois anos da sua entrada. A pasta, segundo o coordenador, tem realizado estudos e parcerias para a troca de experiências com a União Europeia e países da América Latina e Brasil.

“Por aqui, estamos acompanhando a elaboração de dois projetos de Moradia Primeiro, em Brasília e Foz do Iguaçu. Eles foram cofinanciados pelo governo federal, Ministério da Saúde, Ministério da Justiça e Secretaria de Segurança Pública”, complementou Carlos Ricardo.

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