Viajar pra mim é encontrar oportunidades de aprender, de viver o que só se lê nos livros, de ter contato com comportamentos pouco usuais na nossa cultura; é observar maneiras diferentes de resolver  problemas comuns a todos os lugares; é ver locais importantes que explicam os por quês do mundo de hoje ser o mundo de hoje. Mas, mais do que tudo isso, viajar pra mim é ter a oportunidade de entrar em contato com o diferente, poder ressignificar minha visão sobre as coisas e me reinventar como ser humano.

Sou muito grato pelas oportunidades que tive de conhecer muitos lugares legais. Praias lindíssimas, desertos infinitos, montanhas inóspitas, mais variadas culturas, pessoas e realidades. Cada uma dessas experiências me agregou muito, me fez revisar conceitos e verdades absolutas, além de me ajudar a amadurecer e me desenvolver. Toda vez que penso sobre isso, me emociono em perceber quão privilegiado fui/sou. Desde o momento que comecei a realmente estar consciente do tamanho
privilégio, comecei a desenvolver uma gratidão enorme por tudo isso. E foi aí que me peguei interessado
em, de alguma forma, retribuir ao mundo tudo o que ele me proporcionou de bom. Não sabia exatamente como, mas comecei a pesquisar diferentes maneiras.

Fui atrás de entender o que me incomodava. Há algum tempo, a desigualdade social é um tema que me rebomba na cabeça. Por que? Porque, na minha humilde visão, muitas das situações que me incomodam tem esse tema como causa principal. E não digo sobre o simples ‘uns tem e ou outros não’, ‘uns tem mais e os outros menos’. A questão que me atinge é sobre as consequências. Para mim, a distância entre as classes sociais é tão grande que ocorre um processo de desumanização inconsciente. Nos esquecemos que aquele que vive em outra realidade também é um ser humano. Um exemplo comum são as vezes que vemos moradores de rua que estão dormindo no frio ou crianças pedindo dinheiro nos semáforos e não sentimos nada.

Sentir é o processo de compreensão e entendimento das nossas emoções. As emoções são uns dos mais fortes impulsos instintivos que temos. Vem direto do nosso inconsciente, como um míssil, pronto para explodir nas nossas terminações nervosas e produzir os hormônios que nos dão a sensação de felicidade, tristeza, ansiedade, raiva. Sua origem, normalmente, é incontrolável. Querendo ou não, elas aparecem. Muitas vezes não as entendemos e deixamos de realmente sentir as emoções.

Me peguei assustado quando, um dia andando numa rua em São Paulo, percebi que eu também não sentia “nada” ao ver moradores de rua em situações necessitadas. Eu fazia parte do que me incomodava. Dói olhar para si e perceber que você faz parte do problema. Nesse ponto, notei algo estranho. Percebi que quando eu via uma Coca-Cola, eu sentia vontade de beber. Quando eu via um lanche do Giro’s, eu sentia vontade de comer. Quando eu via um ente querido, eu sentia vontade de abraçar. Ou seja, as emoções apareciam e esses sentimentos estavam funcionando bem. Por que então outros canais estavam sem lógica? O meu racional dizia que a pessoa não deveria estar naquela situação. Mas o meu sentimento parecia não se importar o suficiente a ponto de me entristecer, de eu sentir algo forte o suficiente para me fazer agir. Ou seja, não é que eu não sentia nada, eu só não sentia a ponto de me gerar um grande mal-estar e uma consequente ação. Era leve, acontecia, passava. A Coca-Cola por exemplo, a vontade era o suficiente para me fazer comprar uma.

Logicamente, entender todo esse processo não me fez feliz. Comecei então a buscar maneiras de me colocar mais em contato com pessoas em situações vulneráveis e entender um pouco mais essa outra realidade. Tentei colocar essa vivência nos meus humildes e atribulados finais de semana (por meio de alguns trabalhos voluntários na região ou visitas à locais com pessoas em situações de vulnerabilidade) e tive um sucesso mediano, mas não suficiente. Fiquei sim mais sensível, mas era isso que eu queria? Ter dó? Ter pena? O que eu realmente queria com aquilo tudo?

Percebi que, mais do que sentir, eu queria entender. Por que as pessoas estavam onde estavam? Qual a história de cada um? Quais os desafios do dia a dia? Quais os sonhos? Qual a rotina? Gostei do tema e achei uma boa oportunidade de retribuir um pouco e ainda aprender com a experiência. Pensei que talvez uma maior imersão poderia me auxiliar em todas as respostas e decidi dedicar um período maior (nas minhas férias do trabalho) para um contato mais direto. Aproveitei para me desafiar duplamente. Sempre gostei de atividades físicas, principalmente caminhadas de longa distância. Encontrei na África a oportunidade de ter todas as experiências de uma só vez.

Juntei então à essa aventura toda um amigo, o João. Amizade de 5 anos que virou irmandade, um cara que pensa muito parecido e muito diferente de mim ao mesmo tempo, e isso me ajuda a evoluir exponencialmente. Sua companhia foi a melhor coisa que aconteceu para a viagem.

Caio ao lado do parceiro de viagem João Foto Arquivo pessoal

Partimos então para a África. Destino: 9 dias na Tanzânia para subida ao Kilimanjaro (5.895 m acima do nível do mar, maior ponto da África) e 25 dias Quênia (trabalho voluntário no Wema Centre, um centro de proteção a crianças, que trabalha com resgate, reabilitação e orientação de crianças de rua ou em situações de vulnerabilidade).

Um breve relato sobre a subida ao Kili. A caminhada até o topo do África durou 7 dias. Escolhemos como modo de subida a Rota Machame, uma das 12 diferentes rotas para atingir o cume. Ela foi a escolhida por proporcionar uma maior variedade de vegetação (passamos por florestas tropicais, savanas, planícies desérticas e visões dignas dos filmes do Senhor dos Anéis) e clima (pegamos muito sol, chuva leve, caminhamos entre as nuvens e neve no finalzinho). Em meio à essa incrível experiência, caminhávamos uma média de 7 horas por dia, subindo. O ritmo era lento então conseguíamos aproveitar o trajeto, conversando e curtindo o desafio. Até chegarmos no quinto dia a noite, dia esse que iríamos até o pico. Começando o dia 6, caminhamos da meia-noite até as 06:30 da manhã, no qual subimos cerca de 1.200 metros de altitude em 4,5 Km. Muito íngreme. Mas conseguimos! Fazer qualquer coisa à 6 mil metros de altitude é um desafio enorme, mas conseguimos. Levei comigo a bandeira de Bocaina, para levar nossa metrópole até o ponto mais alto do continente africano. Depois, utilizamos o restante do dia e o próximo para completarmos a descida. Um desafio memorável que nos rendeu muitos aprendizados.

Localizado no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quénia, é o ponto mais alto de África-Foto Arquivo pessoal

Depois da Tanzânia, fomos para o Quênia, conhecer uma outra parte da realidade africana. Já
havíamos entendido um pouco dessa cultura na própria Tanzânia. Mas imergir como fizemos fez toda a
diferença.

Fomos ao Quênia por uma agência de intercâmbio social brasileira chamada Exchange do BemO papel deles é realizar o contato entre quem quer ajudar e quem  precisa de ajuda, ou seja, eles conectam voluntários com locais carentes em diferentes países, inclusive o Brasil. Trabalho incrível, virei fã desse pessoal.

Fomos para Mombasa, segunda maior cidade do Quênia. Ficamos alojados na casa de uma queniana incrível, a Njeri. Ela foi um dos motivos de termos conseguido a tão querida imersão em outra realidade. Guerreira que é, tem 3 empregos: trabalha com a lavagem de toalhas de mesa de restaurantes da cidade, coordena o programa do Exchange do Bem no Quênia (além de alojar voluntários) e tem um café na região que mora, que serve café da manhã, almoço e janta.

Nossa rotina se baseava em ir pela manhã para o centro, ficar o dia todo com as crianças e voltar para a casa da Njeri. Nossas atividades eram diversas: auxílio na preparação das refeições para as crianças, limpeza do refeitório e dos utensílios de cozinha, auxílio em cuidar das crianças, reforço de algumas matérias da escola e principalmente nos doarmos completamente de corpo e alma na interação com as crianças. Participamos de infinitas brincadeiras, músicas, futebol e muitas conversas legais.

Encontros e brincadeiras marcaram a passagem de da dupla de voluntários pelo país Foto Arquivo pessoal

Fizemos parte (de coração) dessa realidade durante os 25 dias planejados. Imergimos. Ficamos completamente expostos a nova cultura. Nossa vida foi vivida o mais próximo possível da realidade africana que conseguimos. Comida, transporte, higiene, convívio social, conversas, horários, métodos de trabalho, interações. Parecíamos duas páginas em branco, deixando o Quênia escrever o que quisesse.

Conhecemos histórias incríveis de crianças que moravam nas ruas de Mombasa, resgatadas pelo centro bem novinhas e empoderadas a ponto de se formarem em boas universidades do país. Tivemos contato também com crianças recém resgatas, com os seus 7, 8 anos de idade e um turbilhão de emoções que o vício em cheirar cola e mascar khat (uma planta estimulante e que ameniza o apetite, mas que causa distúrbios mentais) impediram de serem entendidas. Brincamos incessantemente com crianças adoecidas (alergias, vermes, micoses) e vimos a carência do cuidado individual e da atenção personalizada, consequência natural de um centro que cuida de 120 crianças com cerca de 20 staffs. Fomos expostos à corações que imploravam por amor, por atenção, por carinho e que não sabiam exatamente como expressar essa necessidade.

Tivemos ainda a oportunidade de visitar as ruas de Mombasa, junto a pessoas do centro, em um processo de prospecção de crianças e também para doação de roupas. Conversamos com muitos meninos de rua que habilidosamente seguravam uma garrafinha pet cheia de cola com a boca enquanto contavam suas histórias de vida. Tivemos contato direto com muitas mães de crianças do centro, que orgulhosamente contavam que tinham conseguido vaga para suas filhas e nos agradeciam com lágrimas nos olhos por ajudarmos no cuidado delas. Conhecemos ainda moradores de rua que trabalhavam mais de 12 horas e recebiam cerca de 3 dólares por dia, dinheiro esse que era dividido com a família que morava em outra cidade.

Enfim. Pessoas. Finalmente eu consegui enxergar pessoas. Pessoas com necessidades básicas, pessoas que sofreram, pessoas que sofrem. E pessoas que amam, pessoas que sorriem, pessoas que sonham. Após a vivência percebi que meus sentimentos ao ver moradores de ruas se organizaram um pouco mais. Eu pelo menos comecei um processo de entendimento.

Hoje, depois disso tudo, estou curado e… mentira. Não é assim. Sentir é um desafio diário. Entender tudo o que passamos e transcrever em aprendizados é algo que vai acontecer com o tempo. Porém, a vivência me deu ferramentas para quebrar as barreiras da negligência e alguma empatia para começar a pensar em como fazer a diferença na minha pequena realidade.

Tenho plena ciência de que poucas realidades foram mudadas com a minha ida ao Quênia. O país continua carente e ainda existem um número incontável de crianças nas ruas. Não atuei na causa raiz, sei disso. Mesmo assim, talvez a nossa doação plena, o compartilhamento de amor, de afeto, de atenção, tenham impactado vidas. Talvez uma conversa ou outra, uma pergunta mais marcante, um abraço carinhoso, uma atenção mais especial, possam sim, ter marcado pessoas de modo diferente e isso com certeza modifica valores e modos de ver a vida. Eu percebi claramente que a atuação micro pode mudar sim a realidade macro. A partir do momento que enxerguemos o outro como outro. Que nos aproximemos, que tenhamos contato. O lema do Wema Centre é “Love Never Fails” ou “O Amor Nunca Falha”. Nunca estive mais certo disso. Ainda mais quando usamos o amor em tudo na nossa vida: nas relações interpessoais, nas tomadas de decisão, nas percepções de mundo. O diferente pode assustar, mas o olhar amoroso minimiza o impacto e deixa espaço aberto para o aprendizado com os diferentes estímulos.

Além disso, percebi também que minha gratidão triplicou. Como comentei, minhas experiências prévias me incentivaram a olhar com gratidão para minha vida. E isso é um exercício diário. Agora, a coisa intensificou. Cada momento da minha vida, cada vez que eu pego em um garfo pra comer, um carro pra me transportar, um amigo pra me acompanhar, um abraço da minha mãe, pai, irmão, me passa na cabeça quão privilegiado eu sou. Cresci em uma realidade cheia de amor, educação, carinho. Meus pais me ajudavam a estudar pras matérias da escola (e eu tinha escola), meu irmão brincava comigo, sempre rodeado de amigos. Fui incentivado a aprender diferentes habilidades, me foi ensinado valores  importantíssimos e me tornei quem sou hoje graças a todos esses privilégios e oportunidades.

Então, entendi que eu não consigo, na minha humilde ignorância, mudar a realidade social das pessoas do dia pra noite. MAS, eu consigo atuar diretamente em uma das principais consequências. Eu, e todos nós, conseguimos atuar na “desigualdade emocional” e diminuir a distância que existe entre os corações. E não precisamos ir longe, para os moradores de rua e pessoas necessitadas. Precisamos nos aproximar emocionalmente das pessoas no nosso dia a dia, transformá-las em ‘gente como a gente’, eliminar os preconceitos e o julgamento de valores.

Desse modo, deixo, para quem se interessar, as perguntas que mais me fiz durante e pós a viagem:

Será que estou sentindo minhas emoções?  Será que estou sendo grato pelos meus privilégios?  Será que tem amor no meu modo de olhar a vida?  Será que estou fazendo o máximo que posso em relação àquilo que me incomoda?

Ler e negligenciar (assim como VER e negligenciar), não muda nada. Parar, dar atenção e pensar sobre pode mudar a sua vida (e a de muita gente), como mudou a minha. Mais uma vez, as experiências me ensinaram e sou, novamente, grato pela oportunidade.

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