As obras de asfaltamento, são segundo divulgou a prefeitura, a maior intervenção asfáltica da história do município

Wagão

Um documento da prefeitura de Bocaina faz menção a colocação de massa asfáltica em ruas do centro antigo da cidade. De acordo com o documento obtido pelo Bocaina Informa, a colocação de massa asfáltica deve acontecer nas travessas entre ruas Cerqueira César e Floriano Peixoto. Nestas ruas estão concentrados a maior parte do conjunto arquitetônico e histórico do município.

De acordo com o documento trechos das ruas Tiradentes,  Sete de Setembro e Alvarenga Rangel devem ser recapeadas. Ao todo 3.080,14 metros quadrados de massa asfáltica devem encobrir não apenas partes das ruas e suas pedras centenárias, mas também parte da história da cidade.

Trecho da rua Alvarenga Rangel também deve receber intervenção asfáltica-Foto Vlad Benincasa

A possível intervenção asfáltica nas ruas do centro antigo da cidade parecem ir na contramão da fala do diretor de Turismo de Bocaina, Carlos Alberto Cunha. Em uma entrevista concedida ao jornalista Aurélio Alonso Fernandes, do Jornal da Cidade de Bauru em outubro de 2018 o diretor demonstrava uma preocupação com o problema da descaracterização do entorno da igreja matriz de São João Batista.  Cunha se refere ao conjunto arquitetônico construído no período da cafeicultura, muitos segundo ele,  alguns já estão sofrem com a descaracterização  de reformas feitas sem obedecer os padrões da época.

As obras de asfaltamento, são segundo divulgou a prefeitura, a maior intervenção asfáltica da história do município. Ruas de vários bairros da cidade já foram recapeadas mas não há até o momento informações sobre quando as obras nessas ruas deverão ser iniciadas.

Muitas das ruas do centro histórico da cidade ainda guardam o calçamento original de paralelepípedo, feito na primeira metade do século XX, compondo, com os casarões, um cenário raro nas cidades do interior paulista.  A cidade recebeu em fevereiro deste ano, do Governo do Estado de São Paulo, a chancela de Município de Interesse Político (MIT), justamente pelo seu patrimônio arquitetônico e artístico.

De acordo com informações contidas no livro “Uma Cidade e Um Pouco e sua História”( O livro conta parte da história da cidade) de Walmir Furlaneto, a colocação do calçamento de pedras teria ocorrido na primeira metade do século XX, mas precisamente na década de 20. As pedras eram trazidas de trem e eram fornecidas por uma pedreira na cidade de Jundiaí (SP).

Conjunto arquitetônico do centro antigo da cidade casarões, antigos e ruas de paralelepípedos-Foto Vlad Benincasa

Algumas ruas do centro da cidade já receberam massa asfáltica sobre o calçamento em 2014. As obras contaram com recursos de convênio firmado com o governo federal, através do Ministério das Cidades.

Um levantamento feito pela reportagem já foram colocados mais de  1.496,97 m² de massa asfáltica sobre paralelepípedos em ruas da cidade.

De acordo com o cronograma de obras da prefeitura na época, as ruas Cerqueira César, Valadão, e Américo Brasiliense  e trechos das ruas Alvarenga Rangel, Coronel Pedro Alexandrino, Capitão Bento Rangel e Theodoro Ricardo, receberam intervenções.

Ainda de acordo com informações divulgadas pela prefeitura na época as ações visavam dar maior segurança aos motoristas.

O professor da Faculdade de Arquitetura da UNESP, campus Bauru, Vladimir Benincasa, recebeu com tristeza a notícia sobre o possível asfaltamento.

“Se essa for realmente a decisão da Prefeitura de Bocaina, a de asfaltar as ruas de paralelepípedo que restam no centro, só posso lamentar. O município recentemente recebeu a chancela de Município de Interesse Turístico (MIT) justamente por seu patrimônio e por conservar a ambiência e as características de uma cidade do início do século XX, da qual o paralelepípedo faz parte” diz.

Benincasa diz que como os calçamento dessas vias estão prontos a conservação seria uma alternativa mais viável, o baixo custo. Em contrapartida o professor destacou as desvantagens do asfaltamento.

De acordo com Benincasa, o asfalto tem de ser refeito periodicamente, aumenta a velocidade do tráfego, logo virá a criação de lombadas, placas de sinalização dessas, gerando poluição visual, estragando a limpeza visual que Bocaina ainda tem.

“Porém se é esse o desejo da cidade, resta-nos lamentar o começo do desaparecimento de uma das poucas cidades que ainda conservam um patrimônio bastante íntegro do início do século XX no Estado de São Paulo. Uma pena que o turismo histórico não seja entendido como algo lucrativo, sorte das poucas cidades que o exploram, pois perdem uma concorrente” diz.

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