Especialistas concordam que medida precisa ser discutida com a sociedade

Especialistas ouvidos pela reportagem do Bocaina Informa na tarde desta segunda-feira (15) defenderam a necessidade do projeto que prevê o asfaltamento de ruas do centro antigo da cidade se revisto e amplamente debatido junto com a sociedade. Os especialistas apresentaram argumentos que no ponto de vista deles inviabilizariam a realização do projeto. Poluição visual além de prejuízos econômicos também podem ocorrer.

Bruna Bevilaqua, arquiteta e urbanista, tem como objeto de pesquisa a cidade de Bocaina. Bevilaqua diz que que o fato de existir posicionamentos contrários ao projeto de asfaltamento precisa ser analisado com cautela pela administração.

De acordo coma pesquisadora, entre as cidades da região, Bocaina é a que reúne um maior acervo arquitetônico, o que a torna importante não penas para os moradores mas também para o cenário turístico, arquitetônico do estado.

Ainda de acordo com Bevilaqua a medida de tamanha interferência na paisagem local deve ser amplamente discutida com a população, de maneira democrática. Ainda de acordo coma pesquisadora, é imprescindível que exista uma Conselho Municipal de Patrimônio.

“Bocaina é um dos últimos exemplares, notoriamente bem preservado, da história do Estado de São Paulo e do Brasil. Como não há uma medida legal que assegure a salvaguarda do patrimônio local, hoje está na mão dos bocainenses decidir sobre o futuro da preservação de nossa história. Espero que cientes de sua responsabilidade, todos pensem e opinem sobre o tema. Acho todas as opiniões válidas, mas acredito que tais decisões devem ser analisadas por um ponto de vista abrangente” diz.

A bocainense, Ana Laura Assumpção, doutoranda, Instituto de Arquitetura de Urbanismo da USP São Carlos, destaca a qualidade da estrutura existente nas ruas do centro da cidade.

“O paralelepípedo está na cidade desde que ela se formou e até hoje nunca tivemos problemas e gastos com ele. Sem contar os seus benefícios: é um piso drenante, ou seja, permeável, absorve a água e não ocasiona inundações, enchentes; e ainda contribui para o micro clima da região, ao contrário do asfalto”, comenta.

A configuração da malha urbana, sua estrutura e constituem elementos indissociáveis, nesse sentido, entra o calçamento da cidade formada na primeira metade do século XX.

“Temos um bem tombado pelo órgão estadual, o antigo Grupo Escolar. Ele, juntamente com a Câmara Municipal, tornam presente parte da nossa história, mas não são apenas os edifícios, o calçamento em paralelepípedo do entorno acaba por compor a paisagem e nossa história. E esse é apenas um exemplo” ressalta.

Maria Helena Gabriel, estudante do curso de arquitetura e urbanismo da Unesp Bauru, argumenta que cidade de Bocaina, tem preservado um conjunto arquitetônico e urbano que remonta a suas origens, destacando-se por manter viva uma memória, na medida do possível.

A universitária cursa o quinto ano da faculdade de arquitetura e acredita que a intervenção atualmente proposta de asfaltar ruas de paralelepípedo do centro antigo da cidade é uma medida agressiva para essa paisagem histórica e, assim sendo, deve ser precedida de discussões entre a população, governo e profissionais da área, para que todos os prós e contras sejam devidamente colocados e soluções adequadas sejam tomadas.

De acordo com a Maria Helena, um ponto importante a ser considerado é a identidade da população para com esses elementos que compõem a paisagem do município.

A estudante elenca o levantamento que fez sobre a Igreja Matriz de São João Batista e o estudos sobre instituições culturais do município. Maria Helena destaca o trabalho de pesquisa de campo feito no município.

“Muito se perde nos dias de hoje com construções e composições genéricas, e essa preservação que encontramos em Bocaina é o diferencial que faz com que a população crie uma identidade com a cidade e tenha uma memória preservada, assim como diversos outros elementos da cultura bocainenses, como a festa de São João, por exemplo: os casarões, as ruas de paralelepípedo, a festa do padroeiro são todos elementos de uma cultura que preserva uma história e memória da própria população.

Já o professor Vladimir Benincasa, da Faculdade de Arquitetura da UNESP, campus Bauru. aponta para o prejuízo econômico que a decisão pode trazer consigo. Benincasa diz que a decisão parece ser desencontrada dos esforços feitos pelo município ao buscar o reconhecimento como Município de Interesse Turístico pelo Governo do estado.

“O município recentemente recebeu a chancela de Município de Interesse Turístico (MIT) justamente por seu patrimônio e por conservar a ambiência e as características de uma cidade do início do século XX, da qual o paralelepípedo faz parte. Por essa chancela, recebe uma verba adicional para conservar esse patrimônio e promover – a partir dele – atividades que ajudem a cidade a se desenvolver economicamente, como o turismo e tudo o que advém disso, como serviços de hotelaria, de restaurantes, etc., além de criar outras formas de atração criativas e que aproveitem as suas vocações” comenta.

O professor ressalta o empobrecimento e o aumento da poluição visual no centro da cidade.

“Com os asfaltamento logo virá a criação de lombadas, placas de sinalização dessas, gerando poluição visual, estragando a limpeza visual que Bocaina ainda tem. A meu ver, um gasto desnecessário, com algo que já está pronto” finaliza.

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