Ademir Testa Junior, desenvolveu trabalho com um grupo de 20 alunos da 5ª `8ª série do Ensino Fundamental.  “Conversando com os alunos, percebi que a atividade física é entendida por alguns como algo ‘para rico, para quem tem tempo”, diz

O professor de Educação Física não pode subestimar o poder da lousa e das carteiras. Essa é uma das conclusões do professor Ademir Testa Junior, que é mestre em Educação, especialista em Psicopedagogia Educacional e Clínica e em Educação Física Escolar.

Atuando na década passada como educador na escola estadual Capitão Henrique Montenegro, no pequeno município de Bocaina, com menos de 15 mil habitantes,Testa inscreveu o projeto “Movimento, Saúde e Qualidade de Vida: a Educação Física na escola” no Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, do grupo Abril – considerado o “Oscar da Educação”. Concorrendo com mais de cinco mil trabalhos do país, o projeto foi escolhido em 2009 o melhor na área de Educação Física. Entre os 10 vencedores, o trabalho foi também o único nessa área do conhecimento.

Testa, que tinha então apenas 24 anos, e quatro de atuação na escola, desenvolvera um trabalho com 20 alunos da 5ª à 8ª série do Ensino Fundamental. Fora do horário das aulas, parte do grupo estudou temas relacionados às ligações entre a prática dos movimentos, as aulas de Educação Física e a saúde.

As crianças criaram uma comunidade na hoje falecida rede social Orkut, na qual publicaram os trabalhos e textos. As atividades propostas por Testa se basearam no método de resolução dos problemas. “Utilizamos a perspectiva da educação para a saúde, que se justifica fortemente hoje, num momento em que observamos as consequências do sedentarismo e as doenças decorrentes da obesidade. Eu entendo que a escola não é a única responsável pela construção de uma base de conhecimento. Nós oferecemos informações. A ideia é que a criança que decida ser sedentária saiba quais são as implicações disso”.             

Por meio de jogos interativos, alongamento, danças integrativas, yoga, atividades de expressão cultural, pesquisas na internet, elaboração de trabalhos no Power Point sobre o tema “Saúde e Qualidade de Vida”, os alunos construíram um acervo de conhecimentos.

“Eu me propus a contribuir para desenvolver a vontade e a motivação para os alunos praticarem exercícios físicos na vida cotidiana”, afirma o professor.

Bocaina tem uma economia baseada na fabricação de equipamentos de proteção individual (EPI), beneficiamento de couros, pecuária e cultivo de cana de açúcar, café, macadâmia e eucalipto. “Conversando com os alunos, percebi que a atividade física é entendida por alguns como algo ‘para rico, para quem tem tempo’. Quem trabalha o dia inteiro, por essa ótica, não teria oportunidade para isso. Esse tipo de pensamento acaba condicionando a mentalidade das pessoas naquela cidade pacata e sedentária”.

Testa separou os alunos em dois grupos: um deles teve apenas aulas práticas, com atividade física. O outro, apenas aulas teóricas. “No estudo, nos deparamos com uma surpresa: o grupo teórico é o que passou a praticar mais atividade física fora da escola. Isso demonstra que a construção do conhecimento teórico estimula mais o sujeito a praticar atividade física”.

Um dos jogos interativos chamava-se “Canibalismo”. No bosque municipal, situado em frente à escola, as crianças foram divididas em grupos e pintadas com cores diferentes. Aquelas com cor preta eram as canibais, e os demais grupos deveriam fugir delas. A atividade, um exercício de corrida leve a moderada, durou 40 minutos. Ao final dela, Testa explicou as alterações observáveis no corpo, como as mudanças na frequência cardíaca.

As crianças aprenderam também a calcular o índice de massa corporal (IMC). Com uma calculadora, puderam concluir quem estava no peso ideal, acima ou abaixo dele. Foi montada uma banca no bosque – as crianças faziam a avaliação física dos transeuntes e sugeriam a prática de atividades físicas e o cuidado com açúcares e gorduras a quem estava acima do peso. Quem estava abaixo dele era orientado a reforçar a alimentação e praticar exercícios físicos, como a musculação, para aumentar a massa muscular.

Hoje atuando em Jaú, numa escola de Ensino Médio e Fundamental, Testa se prepara para publicar seu trabalho de doutorado com desdobramentos sobre o mesmo tema, mostrando os resultados da aplicação da metodologia. No final do trabalho, são apresentados três modelos para montagem de planos de aula.